Movimento Natura

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VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Para acabar com a violência é preciso acolher a vítima

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Que tal inspirar mais gente com esta história?

A violência contra a mulher foi tema de redação da maior prova do país, o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, em 2015. Também foi o assunto central de fortes campanhas online que circularam nos últimos meses, como #meuprimeiroassedio, #meuprofessor, #amigosecreto, entre outras. Décadas de mobilização da sociedade civil e dos movimentos de mulheres têm colocado o fim da violência de gênero no topo das agendas nacionais e internacionais. No entanto, os desafios persistem na implementação dessas leis, limitando o acesso de mulheres e meninas à segurança e justiça.

Apesar de ser um crime e grave violação de direitos humanos, a violência contra as mulheres segue vitimando milhares de brasileiras reiteradamente: 38,72% das mulheres em situação de violência sofrem agressões diariamente; para 33,86%, a agressão é semanal. Esses dados foram divulgados no balanço dos atendimentos realizados de janeiro a outubro de 2015 pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR).

Dos relatos de violência registrados na Central de Atendimento nos dez primeiros meses de 2015, 85,85% corresponderam a situações de violência doméstica e familiar contra as mulheres. Em 67,36% dos relatos, as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo: companheiros, cônjuges, namorados ou amantes, ex-companheiros, ex-cônjuges, ex-namorados ou ex-amantes das vítimas.

Já em cerca de 27% dos casos, o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido. Em relação ao momento em que a violência começou dentro do relacionamento, os atendimentos de 2014 revelaram que os episódios de violência acontecem desde o início da relação (13,68%) ou de um até cinco anos (30,45%).

A descrição da vítima-padrão dos relatórios se encaixa perfeitamente na história da comerciante Nilcimar Maria Santos, 44. Divorciada e mãe de três filhos, Nill foi vítima de violência doméstica praticada pelo seu ex-companheiro por dez anos. Após se separar do marido, conheceu um grupo de mulheres que, assim como ela, sofreu com o mesmo problema. Foi ali que ela percebeu que ao compartilhar sua história, ela ajudava a transformar a vida de outras mulheres.



A estratégia do acolhimento

Assim nascia a Associação Mulheres de Atitude com Compromisso Social (AMAC), no qual Nill é coordenadora. Na região da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, a AMAC acolhe mulheres que sofrem agressões, em um espaço cedido pela igreja local, para a realização de oficinas de artesanato e capacitação. Hoje, o grupo conta com 30 associadas, das quais 20 são artesãs.

Do total arrecadado com as vendas, 10% do valor é usado para organizar as reuniões de apoio e conscientização sobre direitos da mulheres. Os encontros reúnem entre 50 e 70 participantes. “As reuniões tratam de temas relacionados à saúde, beleza, direitos humanos”, conta Nill. A comerciante criou a entidade ao mesmo tempo em que se tornava Consultora Natura, há oito anos. E foi o trabalho de Nilcimar a frente da AMAC que fez dela uma das vencedoras do Prêmio Acolher 2015.

“O maior benefício que o projeto traz para essas mulheres é a coragem que ele devolve à vítima. De falar, gritar, pedir ajuda. Porque elas entendem que não estão sozinhas. Eu sei que o nosso trabalho é muito pequeno. É um trabalho de formiguinha. No entanto, o primeiro passo neste trabalho é o acolhimento”, relata Nilcimar, que atua na linha de frente da associação, promovendo maneiras das associadas aprenderem um ofício e, desta forma, conquistarem independência financeira.

De acordo com os especialistas, para que a política de enfrentamento à violência contra a mulher seja aplicada de forma integral, deve-se buscar a combinação e o equilíbrio das medidas de prevenção, proteção, assistência e punição. “Sem negar a necessidade de respostas penais, é importante destacar que somente estas não promoverão mudanças culturais necessárias para acabar com a violência de gênero. Por isto é tão importante a ação de grupos assistenciais nas comunidades”, explica,  Fabiana Leite, Advogada, é especialista em violência intrafamiliar pela USP e consultora do Ministério da Justiça para Penas Alternativas.

Segundo Nill, é preciso ter paciência se a vítima tiver recaídas, ou perdoar quem a agrediu. Raramente a vítima se livra do agressor rapidamente. “Foram gastos muitos anos para construir uma relação violenta e, além disso, nem sempre é fácil romper esses laços, existe uma pressão social para que a vítima ‘não atrapalhe’ a vida do agressor”, explica ela.

Segundo a comerciante, como o agressor não usa somente violência física, ele costuma usar ameaças e intimidação, ele acaba por fazer com que a vítima se sinta inútil e desamparada. “É muito difícil para a vítima falar sobre o assunto. O nosso objetivo é encorajá-la a lidar com a situação, sem pressionar. É amparar”, explica a comerciante a estratégia de sucesso. “Vimos que não precisa de muito para boas coisas acontecerem”, diz Nilcimar, cheia de esperança.
Movimento Natura
01/03/2016
 

Movimento Natura e Projeto Mulheres de Atitude

Nilcimar Santos foi vítima de violência doméstica por 10 anos e hoje orienta mulheres na Associação Mulheres de Atitude sobre saúde, beleza e direitos humanos. Saiba mais em http://bit.ly/1KSCVEJ